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A tia Francelina

Terça-feira, Junho 2, 2015

A tia Francelina
Desta vez teve de ser, fui visitar a senhora mais simpática do mundo.
– Olá tia Francelina! Então como tem passado?
– Até que enfim que vieste visitar-me, quase há um ano mas, entrai , entrai…
1.A Snra Francelina, tia, como carinhosamente a adoptamos desde crianças eu e os meus irmãos, uma empatia dos tempos em que as nossas familias eram vizinhas, sofreu um desgosto de amor, quando aos vinte e cinco anos e a uma semana de casar, o pretenso noivo deu de frosques, desapareceu sem dar cavaco a ninguém, nem sequer aos familiares e de nada valeu o pai da tia Francelina e dois amigos irem à casa onde morava o desaparecido pedir satisfações que, a familia desolada sabiam tanto como eles sobre o que terá passado pela cabeça do estupor, como se lhe referia o pai deste, que só se aperceberam que realmente tinha fugido quando deram pela falta da mala e de roupa, amaldiçoando perante o pai da noiva e dos amigos, a falta de honra do estupor, por ter faltado às suas obrigações de comprometido. Mais tarde descobriu-se que o mariola tinha-se pirado para França na companhia de uma antiga namorada, culpando-a o povo, como a única responsável, por todo mal causado às famílias e claro está à noiva “aquilo, está bom de ver, foi um chã enfeitiçado que ela lhe deu p`ra ele voltar para ela e assim se apoderar de um traste que não lhe pertencia”, dizia o povo na sua imensa sabedoria e de boateiro.

2.Cresci a ouvir contar esta história do noivo que renegou a Francelina, de todas elas com pormenores inflacionados como convém para impressionar os néscios, a pessoas que tinham sido convidadas para a boda e ficaram desapontadas por ter falhado a oportunidade de pôr os pés debaixo da mesa e repimpadamente sentados tirar a barriga de misérias.

3.Desiludida com o destino, passado uns anos a tia Francelina foi para Africa onde tinha familiares e por lá arranjou um noivo de substituição para ocupar o vazio do outro e sarar as feridas ainda não totalmente cicatrizadas. Este noivo em segunda mão, estava em mau estado e não durou muito, pois ao fim de um ano e tal deixou a tia Francelina viúva.
Desenganada mais uma vez com o destino, desde então nunca mais quis saber de homem algum. Continuou em Africa a trabalhar como uma espécie de auxiliar para missões religiosas e humanitárias, mas sempre com o intuito de um dia regressar a Portugal e acabar os seus dias na terra que a viu nascer, como gosta de contar. Voltou há doze anos, não para a terra onde nasceu, embora a visite uma vez por ano mas, para a casa modesta que o marido lhe deixou, em S.Iria de Azóia às portas de Lisboa onde vive atualmente.

4.Apesar das agruras da vida, a tia Francelina, de estatura mediana e fisionomia roliça, continua a ser uma pessoa dinâmica, arguta, que fala sem parar saltando de assunto em assunto, atenta a todos os acontecimentos mundanos de qualquer teor e com opinião formada sobre tudo, tendo por fontes fidedignas as informações das suas amigas e, principalmente dos quatro canais de televisão, desde que teve uma queda e partiu um pé deixando-a com algumas dificuldades em andar.

5.Ao fim de estar informada sobre a minha família e dos seus conhecidos de infância e de repetir as mesmas histórias de sempre (a do noivo que fugiu, continua a ser tabu), passadas em Africa mas que nunca cansam, de me ter recriminado por ir tantas vezes a Lisboa e nunca a ter visitado, quis saber mais sobre o assunto dos barcos que fui visitar a Algés (Pedrouços).
P1040190Lá lhe expliquei que os barcos da Volvo Ocean Race, são veleiros especialmente concebidos para enfrentar as condições mais agrestes do mar, por isso é considerada a regata mais difícil à volta do mundo, capazes de atingir velocidades impressionantes de 45 nós (nó 1852m), dependendo da força do vento, composto de sete barcos com nove homens a bordo e um com doze mulheres e, que apesar de se alimentarem com comida em pó (liofilizada), igual à dos astronautas, muito calórica, cinco mil calorias diárias, o equivalente a onze bifes de picanha, chegam a perder 10kg por etapa e que esta regata começou a 4 outubro 2014 em Espanha e vai terminar a 27 junho deste ano na Suécia.
A tia Francelina ouviu tudo atentamente sem interromper, caso raro e depois perguntou-me
– Tu já andas-te nesses barcos quando estivestes na marinha?
– Não tia Francelina, nunca naveguei nesses barcos, mas gostava.
No instante seguinte, desinteressou-se deste assunto e como estava a dar futebol na televisão, a final da taça, perguntou-me de chofre que tal achei daquela pouca vergonha da porrada em Guimarães
– Foi isso mesmo tia Francelina, uma pouca vergonha, ver o policia a bater naquele senhor indefeso peran…
Lesta a tia Francelina desta vez cortou-me o raciocínio
– Aqueles miúdos devem ter ficados envergonhados, primeiro com o pai a injuriar os policias e depois com o policia a bater no pai, olha cá para mim deviam de ser os dois castigados
E novo assunto sobre os muitos candidatos à presidência da republica, coisa que a tia Francelina acha muito bem, porque assim há mais por onde escolher e assim continuou a pular de aassunto em assunto até chegar a hora das despedidas mas antes ainda atirou
– Tu ainda andas na equipa das bicicletas?
– Não tia, aquilo não é bem uma equipa de bicicletas, é um grupo de bons rapazes que gostam de se divertir a andar de bicicleta e eu ultimamente não tenho andado mas, não é por falta de vontade, é por outra questão (nunca lhe contei qual era a questão)
Sem me deixar continuar, sentenciou logo
– Deixa-te disso, tu estás magro porque aquilo arrebenta com as pessoas, eu bem vejo os corredores abaixadinhos em cima das bicicletas, cansados a beber água sem comer nada. Olha fazei boa viagem e dá cumprimentos a todos e em agosto se estiver melhor do pé, vou lá cima.
Adeus tia Francelina, foi um prazer te-la visitado, até à próxima.

One Comment leave one →
  1. Milo permalink
    Quarta-feira, Junho 3, 2015 6:44

    A Tia Francelina assentava como uma luva nos DDR, ficava a subchefe a manter a ordem a pôr a rafeirada na linha.

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