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Para além das bikes!

Segunda-feira, Outubro 26, 2015

Um daqueles dias acinzentados, típico de Outono, um ddr, quem seria? Montado na sua bike sozinho na praia a sul do esporão, equipado, debruçado sobre o guiador contemplava o mar, não temos duvidas que estava à espera da hora para se juntar ao resto do seita e iniciar mais uma jornada aventurosa, a cavalgar a sua burra por montes e vales quiçá descer desenfreadamente o S.Gonçalo, ou até ao campo de tiro em Antas, ou os trilhos da Sra da Guia, talvez por Gemeses, Feitos, lagoa do Meril, tantos lugares. Como o nosso destino estava a 250kms e já eram 08h30, não nos quedamos para lançar um propério de circunstância a esse ddr contemplativo e, por muitos kms prosseguimos apoderados duma nostalgia profunda, porque era uma daquelas manhãs de domingo em que se pedala saudavelmente amalucado em grupo, com o ar da manhã a bater nas ventas, com alguma fisgada para arreliar o parceiro. Estes pequenos grandes prazeres que temperam o espírito do inconformismo de ficar em casa apáticos, indiferentes se terminamos cobertos de lama e molhados como pintainhos. Os ddr estavam prestes a repetir mais uma aventuras e nós ficavamos de fora com a amargura do saudosismo.
Ao passar em Chaves, as recordações saudosistas voltaram, ao ver o forte de Monforte lá no topo do monte, ao relembrar a nossa participação nos dois dias doidos, na Rota do Presunto e o quanto tinhamos de penar para chegar até lá, ao ponto mais alto do percurso.
244kms depois chegamos ao nosso destino, para cumprir uma promessa sempre adiada de ano para ano de visitar a festa da castanha em Vinhais uma pequena vila transmontana com 3000 habitantes.
Começamos por dar uma voltinha pelo pavilhão multiusos onde estava sedeada a X Rural Castanea mas, como a larica começa a apertar e fazendo jus ao ditado, em Roma sê romano, fomos empanturrar-nos com uma suculenta feijoada à transmontana, num restaurante povoado por pesos pesados de transmontanos de tempra, a debitar decibéis muito acima do que seria desejavel. E, se calhar por termos cara de enfezados o dono, Sr Doutel, um respeitável senhor corado, rijo com 80 anos, meteu-se à conversa connosco e só dali saímos depois de nos contar a sua vidinha toda desde pequenino. Na hora da despedida recomendou-nos que forte, forte é a feira do fumeiro em fevereiro e que não a deveríamos perder por nada. Fica o reparo.
Novamente a caminho do pavilhão, iam passando pelo da rua, carros com bicicletas em suportes traseiros e em cima do capot, com dorsais. Curiosos, abordamos um dos participante que nos informou que se tinha realizado uma prova de btt, o XII Raid btt Tour da Castanha, organizada pelo grupo de btt Vinhais Extreeme, era o 4º ano que participava e era uma das melhores provas das muitas em que participou durante o ano, simplesmente espectacular um bocado dura com mil e tal metros de acumulado, mas pelas paisagens brutais valia a pena, dizia-nos ele de bem com a vida. Hum… p`ro ano talvez…quem sabe se os ddr`s quererão perder dois dias!
Outra vez no pavilhão multiusos, onde toda a gente se concentrava, com muitas arrobas de castanhas espalhadas por diversos stands em sacos de serapilheira e tabuleiros, ou não fosse Vinhais o maior produtor nacional de castanhas que movimenta a soma considerável de 30 milhões de euros anualmente só à custa dos castanheiros, dispostos a ver em pormenor todos os stands com produtos locais mas, sobretudo relacionados com castanhas.
Fora do pavilhão a tenda dos espectáculos ia animando o povo com um competente locutor da radio local a convidar quem tivesse algum dom para a cantoria ou tocar instrumentos musicais ou as duas coisas, para subir ao palco e mostrar os seus dotes, relembrando a cada instante que às 16h00 seria apresentado pela 1ª vez, o concurso dos maiores comilões de castanhas num minuto. Uma senhora subiu ao palco e escolheu para cantar acompanhada por um acordeonista uma moda antiga, seguiu-se um tocador de realejo e depois um de acordeão e outro de trompete e a atuação do único grupo folclórico da freguesia de Grijó do concelho de Bragança com 700 habitantes, este grupo a necessitar um bocadinho mais de treino e de um palco maior, para os seus elementos não se esbarrarem entre todos, como aconteceu a certa altura das suas danças tradicionais mas que a bater com os pés no tablado pede meças até aos sargaceiros d`Apulia.
Ao ar livre o maior assador de castanhas do mundo inscrito no guiness em 2007, orgulho das gentes de Vinhais, tornando-se talvez, dizemos nós, no 2º ex-libris da vila depois do porco bísaro, fazendo questão de sublinhar isso mesmo em letras garrafais por cima do assador, ia de quando em quando fazendo as delicias de centenas de comedores de castanhas que, com cartuxos nas mãos esperavam impacientes pelas castanhas assadas que dois diligentes bombeiros controlavam remexendo-as sem parar, no meio de fumarada intensa, que a fogueira alimentada a carqueja expelia em várias direcções. Quando os bombeiros davam a tarefa destes magustões sucessivos por terminada, o povo tomava de assalto o assador e enchia os cartuxos até ficarem abarrotados, aos encontrões lá conseguimos a muito custo encher pela metade o nosso cartuxo mas a desilusão foi imediata as castanhas ultrapassaram o limiar de assadas e estavam noutro patamar todas queimadas.
Entretanto na outra tenda, o concurso do maior comilão de castanhas num minuto, estava no pico, já ia na segunda vaga de concorrentes, controlados por um distinto juri que incluia o sôr presidente da câmara. Ao fim do tal minuto segui-se a contagem das castanhas sobrantes e foi declarado o maior comilão e vencedor absoluto, um atleta vestido de branco, que meteu na boca 14, porque para comê-las foi preciso mais um quarto de hora, ora se lá estivessem os ddr`s, não teriamos duvidas que seriam sérios candidatos a arrecadar os primeiros lugares, o Chico de certeza que ganhava destacado o primeiro prémio.
A noite aproximava-se, e para matar a releira que sentiamos, umas bifanas de javali em pão regadas a cerveja resolveram a questão antes de visitarmos o ultimo pavilhão, o do castanheiro e ficarmos a conhecer as diversas variedades de castanhas e a origem do local, assim como as melhores e mais saborosas para comer, as de calibre médio Longal e Martainha para assar e as grandes como a Judia para cozer. Depois desta importante visita, saimos do pavilhão com a noite cerrada, prontos para fazer as inevitáveis compras de castanhas e nozes e começar a pensar no regresso.
Não diriamos que foi um dia perfeito, porque não os há, mas foi um bom dia, diferente, descontraído, no meio de gente genuína de transmontanos rijos, moldados pelas intempéries das agrestes serranias, afáveis, mas ai de quem lhes faça o ninho atrás da orelha.

3 comentários leave one →
  1. Milo permalink
    Terça-feira, Outubro 27, 2015 9:07

    Bela narrativa! Agora trocas-te os DDR por guia turístico parabéns

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    • Terça-feira, Outubro 27, 2015 21:39

      “Nenhuma forma de vida é totalmente boa, a combinação é tudo. A vida é a arte de misturar ingredientes em proporções toleráveis”

      Um abraço Mailo

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  2. Milo permalink
    Terça-feira, Novembro 3, 2015 16:54

    É com muito orgulho que digo que temos poeta!!
    Abraço Narciso!

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