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Caminho Primitivo 2016

Sexta-feira, Junho 24, 2016

Muita água passou debaixo da ponte desde o passado dia 12, o dia em que os ddr terminaram mais uma aventura pelos Caminhos de Santiago, a segunda pelo Caminho Primitivo, mas só agora é que foi possível escrevinhar qualquer coisa sobre o assunto e ainda a tempo do prazo de validade.

1º dia:

0011.Considerado o mais difícil, o Caminho Primitivo,  esta extraordinária via, uma das trinta e uma referidas oficialmente dos Caminhos de Santiago, que percorre o interior das Astúrias desde Oviedo em direcção a Lugo e depois à capital de Compostela e, supõe-se, porque não há estudos concretos, o primeiro caminho a ser peregrinado para visitar o túmulo do apóstolo Tiago em Compostela, é duro e áspero, mas impressionante e bonito e, pese embora muitas modificações nas infra-estruturas, como tivemos oportunidade de observar desde a nossa última passagem em 2011, há troços que preservam todo o primitivismo como a percurso alternativo de dezoito kms pela serra dos hospitais, o mais inóspito do percurso. De todos os Caminhos que já percorremos, sem dúvida que a via dos 314kms do Caminho Primitivo foi a mais dura, a mais interessante, a mais emblemática, a mais exigente.

Em 10, 11 e 12 junho de 2011, onze ddr percorreram o CP, pela 1ª vez; em 10,11 e 12 junho de 2016, justamente, passado 5 anos, onze ddr voltaram a percorre-lo, mas só quatro elementos é que  o repetiram e sabiam ao que iam: Filipe, Chico, Paulo, Narciso e a arte de como bem desmoralizar o Marco amedrontando-o com as paredes que teria de escalar.

Saímos de Apúlia às 00h26 do dia 10, duas furgonetas com as burras e os moralizados atletas, era suposto desta vez fazer os quinhentos e tal kms de estrada direitinhos até ao destino, mas ainda não foi desta, com o pessoal às turras contra os vidros das janelas das carrinhas a tentar passar pelas brasas, o Solinho e o Cunha que o digam, a revezarem-se à vez para
005apoiar a cabeça no banco do frente, às duas por três, com tantas investidas, o GPS passou-se dos carretos, entrou na onda sonolenta e mandou-nos para a…Nete, uma povoaçãozita fora da estrada e depois ainda tentou que fossemos para Lugo, o certo é que o estupor lixou-nos três-quartos -de-hora às voltas p`ra frente e p`ra trás até o mandarmos para o raio que o parta e chiframo-lo pelo mapa da Google que rapidamente nos mostrou para que lado era Oviedo.

Sem mais incidentes, depois de sairmos da AP-8, com o dia a clarear, com curvas e contracurvas fechadas, numa estrada apertada a provocar calafrios os mais incautos, pelo meio dos montes com neblina, chegamos ao destino às 06h40 e a primeira coisa foi localizar um bar para matar o jejum.

Mais confortados depois de tomarmos o pequeno-almoço, enquanto faziamos o strip na rua a equiparmos-mos, um grupo de 7 bettistas descia do hotel, com aparência de bem dormidos em contraste connosco, todos rotos, mais tarde ficamos a saber que eram de Vizela.

Burras preparadas e montadas, aí vamos nós prontos a roer a 1ª etapa de mais ou menos 100km até Fonsagrada.

Começamos logo pelo aquecimento escalando uma parede até aos 900m, de resto o sobe e desce é uma constante deste Caminho. A certa altura a chuva persistia em nos chatear e lá tivemos que recorrer às capas, felizmente por pouco tempo, mas o espectro da chuva manteve-se durante mais algum tempo.

Ziguezagueava-mos por entre os pueblos rurais com meia dúzia de casas, a desfrutar da beleza dos montes e dos prados imensos e verdejantes da paisagem asturiana a perder de vista, aqui e além a serem pastados por gado bovino a maioria de leite. Os nossos cameramen, Chico e Emílio iam registando tudo com as GOPRO.

Ao contrário de 2011, em que só esporadicamente encontravamos um peregrino de vez em quando e nenhum de bicicleta, agora encontramos bastantes, ao que parece os espanhois tem apostado bastante na divulgação deste caminho, melhorando os troços em mau estado.

Íamos fazendo jus ao ditado, o caminho faz-se caminhando no nosso caso pedalando, paravamos sempre que nos apetecia, a maioria das vezes  para sellar a credencial, admirar a paisagem ou para comer uma bucha e dar de beber ao caparro transpirado, mas quando era preciso pedalar e tínhamos a via limpa de peregrinos, pedalávamos com todo vigor.

Desta vez, queríamos fazer o caminho alternativo pela Rota dos Hospitais, por isso estávamos atentos para que depois de Borres, não passassemos sem nos aperceber como da outra vez, pela divisória assinalada com uma tabuleta com o desenho a assinalar o desvio e algumas advertências aos peregrinos. Os primeiros ddr seguiram em frente pelo trilho mais soft que segue por Pola de Allande e foram obrigados a voltarem para trás. Um aviso por baixo do placard, chamava a atenção:

 “ Esta variante e Los Hospitales esta desaconsejada y es peligrosa com niebla, nieve, tormenta, lluvia etc, debido a su aislamento por falta de núcleos habitados o para comer o beber. No se aconseja bicicletas. Durante los últimos años he sido testigo de personas perdidas y rescates. Actualmente la persona debe pagar por su resgate.”

Foram de facto, 18kms de grande dureza, inóspitos. Depois de um monte com subidas de pedras soltas, seguia-se outro monte e outro até aos 1300m de altitude, o ponto mais alto onde se pode ver as ruinas do hospital de Fonfaraón que entre os sec. XIII  e XV,  socorria os peregrinos que chegavam a este ponto, debilitados fisicamente, com doenças várias onde muitos acabavam por falecer. Passamos nesta zona com nevoeiro até nos perdermos de vista una aos outros e tivemos então consciência do quão fácil é perdemo-nos por ali com mau tempo. É a parte mais dura de todo Caminho, mas carregados de enorme beleza pela sua espectacularidade e simbolismo.

Este desvio entronca no caminho mais concorrido por Pola de Allande em Puerto del Palo. Aqui fizemos um ligeiro descanso, para consertar um pneu rebentado e, sempre por alta montanha fomos dar a uma descida radical, seguida de um um single track  perigoso, onde o menor descuido podia ser fatal a rolar pela serra abaixo, que nos levou a Montefurado um Pueblo minúsculo com uma vista soberba sobre os vales rodeados de montanha e depois a Berducedo, onde os nossos asas Carias e Barbosa, esperavam por nós para…almoçar. O cansaço e o sono, teimavam em tomar conta de nós, mas não, não podia ser, ainda tínhamos muito caminho para roer.

Seguiu-se La Mesa, com uma subida mais curta, mas que não fica nada a dever, p`ra quem conhece, à subida da Vacaria em Barroselas, o esforço foi compensado, porque logo de seguida tivemos uma excitante e longa descida de 9 kms (da outra vez este parte do caminho estava intransitável, segundo nos informaram em La Mesa), primeiro por um estradão cheio de pedras soltas que batiam na burra como se de chumbadas se tratasse, os PROS do grupo, ultrapassaram os 60km/h a descer, seguido por um single track espectacular aos esses, até terminar na barragem do Embalse, um local isolado, com poucas habitações, onde se viam ruínas e tuneis de minas abandonadas depreendendo-se que outrora deve ter sido um importante centro de extração de minério. Esta descida que deixou as mãos a doer, encheu as medidas a todos e deu novo folgo para o que aí viria até ao fim da etapa.

Com toda a gente reunida e operacional, tínhamos agora 28kms pica miolos, pouco interessantes quase sempre por estrada, que iria dos 165m até aos 1050m de altitude, sempre a subir até Grandas de Salime e depois até Ventas del Acebo, o fim da região das Austurias e começo da região da Galiza. Estavamos agora na província de Lugo e 12kms depois o terminus da etapa no hotel do Manolo em Fonsagrada.

Foi, como se esperava, uma etapa dura e estafante, agravada por não termos pregado olho na ultima  noite, com um acumulado de altitude  na ordem dos 3600m e apesar da dureza e cansaço, chegamos ao fim com a moral em alta, felizes por termos roído e vivido intensamente todos os obstáculos que se nos depararam próprios deste percurso extraordinário sem quebras físicas de maior.

2º dia;

2.Manha bonita, parecíamos outros, rejuvenescidos com uma bela noite de sono, a moinha das dores musculares do dia anterior pouco se fazia sentir. Com todos a postos, alguns equipados de forma diferente e bem dispostos, arrancamos com a toda a pujança (pqp) e ganas de atacar a 2ª etapa a mais longa do nosso plano, agora pela região da Galiza.

A saída de Fonsagrada, fizemo-la por um antigo caminho desativado em obras, muito mal assinalado com a sinalética escondida pela vegetação, não havia razão para estar neste estado deplorável, pois é o verdadeiro Caminho que passa ao lado da cidade mas que, quer-nos parecer, foi desviado por motivos comerciais, depois entramos num caminho com vegetação de metro, o que atesta que os peregrinos não utilizam esta via há muito tempo e agora tivemos  de ser nós, os ddr, a desbravar o caminho. Deparamos com a parede mais íngreme de todo o Caminho, felizmente curta até um estradão que nos levaria a Montouto, um monte a 1023m de altitude, com uma pequena capela, ícone do sitio e  ruinas de muralhas do que resta de um hospital que apoiava os peregrinos na idade média. Paramos para tirar a foto em grupo e depois foi voar por uma descida em single track de 3,5km até Vilarello onde ninguém conseguiu agarrar o Marco, com um bar, onde um cão continuou a dormir indiferente com a nossa chegada, em cima das mesas onde se come.

Nesta parte do Caminho, até ao Cádavo, deparamos com estradões recém arranjados que antes, em 2011, eram trilhos difíceis para os caminhantes e muito pior para as bicicletas.

Sem avarias, tirando uns parafusos mal apertados dos selins e com um furo de vez em quando, íamos pedalando pelo sobe e desce das serras e absorvendo, o que o Caminho tinha para oferecer. Depois de ultrapassarmos a inclinada subida a A Lastra, paramos em Vilabade, para visitar um templo antigo do século XV, conhecido pela catedral de Castroverde e seis kms depois estavamos em Castroverde uma pequena vila a 20kms de Lugo. O Carias e o Barbosa lá estavam à nossa esperava com as marmitas do almoçar… os restos do dia anterior. Foi porreiro, enquanto comia-mos, os contadores de piadas terem animado as hostes famintas, sobressaindo os dichotes do Seara e do mestre e inimitável Carias (faltou o Tino e o Futre para lhe darem luta).

Depressa arribamos a Lugo, uma pacata cidade do interior, a quarta em termos de grandeza da região da Galiza, depois de Vigo, Corunha e Ourense, com 100.000 habitantes, circundada pelo rio Minho, atravessamos  a praça maior e saímos pela porta de Santiago da muralha romana. Só paramos o tempo suficiente no albergue para carimbar e uma escala técnica hidratante, já na saída da cidade e ala para o countdown dos 50kms até Melide.

De Lugo a Melide, o Caminho é relativamente fácil e a paisagem muito diferente e mais plana.

Em San Romao, encontramos os nossos amigos de Vizela mais a carrinha de apoio e o atrelado p`ras bikes, que desde Tineo navegou mais ou menos à nossa vista. O grupo  repimpadamente sentados numa esplanada de volta de umas cervejitas e…a fumar! Ainda p`ra mais o chefe deles, que não se livrou de uma reprimenda do nosso boss. Tinham terminado a etapa do dia e iam na carrinha de apoio dormir a Palas de Rey e no dia seguinte retomariam o percurso no mesmo local para Melide. Um grupo fixe.

Trinta kms depois, às 20h00, estávamos em Melide e concluída a 2ª etapa de 107kms a mais longa tirada, mas um pouco menos dura que a do dia anterior, com duas partes distintas, uma montanhosa até ao Cádavo e outra mais ou menos rolante, no fim o altímetro marcava 2600m de acumulado.

É a partir de Melide, uma cidade(?), com 80.000 habitantes, que o Caminho Primitivo se funde com o Caminho Francês. Melide é um importante ponto de passagem de peregrinos vindos dos mais diversas vias, sobretudo, como é óbvio, do Caminho Francês, o mais peregrinado de todos os Caminhos, o mais impressionante e bonito, já percorrido por nós duas vezes.

3º dia;

3.A terceira etapa de 55kms a mais curta, com um acumulado de 1100m, foi a etapa da consagração. Fizemo-la devagar e com cuidados redobrados devido ao muito trânsito de peregrinos, de resto já sabíamos que iria ser assim. É nesta parte final do Caminho que encontramos sempre algumas cenas surreais e comoventes: um peregrino transportava os seus haveres num burro; outros com auscultadores nos ouvidos caminhavam impávidos abstraídos de tudo e vendo-nos, não se desviam um centímetro para nos facilitar a passagem; um casal empurrava um carrinho com um bebe, outro arrastava-se pelo Caminho amparados a muletas, certamente que muitos destes peregrinos teriam histórias fascinantes para contar se tivessemos tempo para as ouvir como a daquele francês de bicicleta que encontramos em Boente e que andava a fazer o Caminho do Norte desde o dia 14 de maio e que queria continuar connosco até Santiago só que, mais adiante quando voltamos a parar, tirou uma foto com o grupo e nunca mais lhe pusemos a vista em cima.

Às portas de Santiago, fizemos a paragem obrigatória no Monte do Gozo, o local onde os peregrinos da idade média, ao fim de tantos dias difíceis avistavam pela primeira vez as cúpulas da catedral  e pelo facto, passavam a ultima noite felizes a cantar e dançar, na expectativa do encontro no dia seguinte com o tumulo do apostolo. Entramos na cidade a fervilhar de peregrinos e turistas e, finalmente o terminamos na praça do Obradoiro em frente da catedral em obras de Santiago de Compostela.

À nossa espera lá estavam… as mais que tudo de dois duros e o nosso amigo Agostinho e, claro, os nossos asas Carias e Barbosa.

Foi uma aventura inesquecível, principalmente para os que a fizeram pela 1ª vez, mas tambem para os 4 repetentes que descobriram 60kms do Caminho Primitivo diferentes da outra vez, com locais e paisagens extraordinários com muita dureza à mistura e, como então dissemos em 2011 , não é nada de transcendente fazer este Caminho  nos dias de hoje, onde podemos usufruir de todo o conforto e apoio, qualquer pessoa o pode fazer desde que esteja bem preparada fisicamente; transcendente isso sim foi para os peregrinos que há uns séculos atrás conseguiram chegar a Santiago, e, como reza a história muitos não resistiram às intempéries e à dureza do caminho e acabavam por falecer antes de chegar a Compostela.

Fomos treze duros, que durante 2 dias e meio, formaram uma grande equipa solidária, que roeram o Caminho com determinação, com algumas incidências cómico/trágicas que também as houve e esta aventura ainda teria ficado mais completa se os nossos companheiros de route, nos tivessem acompanhado.

Terminamos com a nossa máxima preferida:

“Os desafios não são difíceis porque tentamos; é por não tentarmos que se tornam difíceis”

Os treze do Caminho e Santiago 2016:

Filipe Torres; Francisco Ferreira; Emílio Santos; Paulo Santos; Narciso Ribeiro; Tiago Costa (Seara); António Solinho; Marco Gonçalves; Eurico Cunha; Arsénio Almeida e  Alberto Ribeiro – na logistica Zacarias Palmeira e António Barbosa

PS: uma saudação especial para o Luis Pinto e irmão que fizeram o Caminho Primitivo em autonomia, na mesma data que nós, mas desde Oviedo. Felizmente não nos encontramos. Foi à Duros, parabens amigos.

video de: Emílio Santos e Francisco Ferreira

fotos de: Emílio Santos, Francisco Ferreira e Narciso Ribeiro

One Comment leave one →
  1. Francisco permalink
    Sexta-feira, Julho 1, 2016 23:26

    Como sempre as nossas aventuras ao serem narradas pelo Narciso tem um significado espetacular. qualquer leitor parece uma personagem desta aventura e que está a vive-la e a senti-la.
    Grande narrador este senhor, o meu obrigado grande amigo(Narciso)

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