O Transcávado do nosso contentamento

1.Embora já tenha passado uma semana, julgamos estar ainda dentro do contexto para narrar mais uma andança dêdêrriana desta vez a começar em Trás-Os-Montes. Entretanto depois disso, quatro ddr já foram a Fátima, dos quais o Tiago Ribeiro e Rui Monteiro, que estiveram incluídos no lote dos dez ddr que, nos dias 3 e 4 se entreteram, a fazer o percurso do 4.0 Transcavado 2019, desenhado em boa hora pelos João Paulo e Hugo Rocha, mentores da saga Transcavado, desde a nascente do rio Cávado em Montalegre até à foz em Esposende.

De promessa sempre adiada, finalmente ficou assente os dias 3 e 4 de outubro para o cumprimento da promessa, curiosamente a data estipulada para realizar o 5.0 Transcávado, se não fosse a fdp da pandemia estragar tudo.

No sábado dia 3, partimos de Apulia, sob a ameaça da chuva, com destino à nascente do Cavado, 1h45 depois estávamos em Montalegre. Há chegada, fomos surpreendidos por um pórtico montado junto ao Castelo, que assinalava, soubemos depois, o fim do ultra trail de 3 dias, da corrida dos 4 castelos de 165km, que tinha começado no dia 2 em Melgaço. Ora bolas, afinal todo o aparato, não obstante sermos pessoas famosas, não era para nós.

Findo os preparativos para a luta, iniciamos tranquilamente o “aquecimento” de 13km, até ao Rochão (1390 +), o ponto mais alto do percurso, o aquecimento estava feito, do marco geodésico avistava-se a paisagem imensa para além e em redor de Montalegre. Seguiu-se uma descida porreira (-37,8%), ao jeito dos ddr e continuamos no carrocel cavalitante, ora a subir, ora a descer, sempre acima dos 1000m, pelas entranhas dos montes agrestes, de paisagem áridas em contraste com o gado a pastar nos vales verdejantes.

Seguiu-se Pitões das Junias, (1º reforço), com a aldeia deserta, fomos recebidos por cães pastores tamanho XXL e gatos fieis que não nos abandonaram o tempo todo, afinal estávamos em família.

Com um frio de rachar e chuva, deixamos o conforto do restaurante onde tomamos café e fizemo-nos ao trilho traiçoeiro à saída da aldeia, cheio de rasteiras de todo o tipo mas dos quais, tiveram o condão de contribuir para o campeonato da cambalhota com pontuação maxima a favor de um truculento ddr.

Até Fafião, (mais 35km), deparamo-nos com algumas cenas pitorescas, como aquele quadro de plantação de vacas dispostas uniformemente num morro relvado; em Outeiro um pastor e as suas cabras cruzaram-se connosco e contou-nos todo envaidecido, depois de meter-mos conversa, que o rebanho tinha 200 cabras, mas não convençou a todos; na descida um ddr com pinta, num pico de power, foi contra um portão de rede e por lá ficou esparremado de costas algum tempo em pose de cruxificado a rir, a rir, até não poder mais, vá-se lá saber porquê, enquanto mais abaixo outro ddr, dedicava-se a pilhar laranjas em propriedade privada, foi apanhado pelo dono que se conteve de lhe dar uma descasca.

E as peripécias iam-se sucedendo a bom ritmo, e, tal como o lema do caminhante, “o caminho faz-se caminhando”, fazíamos o percurso pedalando sem pressas, mais tarde iriamos pagar esta ousadia. O grupo andou sempre distante, 100? 200m? às vezes mais, entre os primeiros e os últimos, fazendo juz às recomendações da DGS (poi, pois), processávamos tudo o que nos rodeava, afinal estávamos ali para isso, para nos divertir, sem a chatice de tempos cronometrados de provas.

Em sentido contrário, fazendo o mesmo percurso que o nosso, foi uma constante até ao Gerês, encontrar atletas do ultra trail, todos em passo de caracol, alguns, extenuados apresentavam sinais de fadiga extrema, de facto 165km em três dias não é caso para menos.

As paisagens serranas sucediam-se amiúde, intercaladas por paisagens rusticas das raras aldeias por onde passavamos, vivíamos o momento sem nos preocuparmos se tínhamos pela frente de trepar um monte de 100 ou 1300m…,bom, não foi bem assim, ou descidas de declive acentuado, só faltou mesmo o sol correr com a negritude das nuvens.

Depois de Paradela, fizemos um pequeno desvio para admirar a cascata Cela Cavalos, um fenómeno da natureza, dos mais lindos que vimos até hoje, um lugar perfeito para quem gosta de trilhos e de se refrescar, desta vez faltou coragem (e tempo), para a seita dar um mergulho.

Em Cabril, protagonizamos à cena mais radical, de todas quantas fizemos até hoje, depois de um pequeno engano gêpsiano, atalhamos por umas escadas estreitas, toscas, ingremes, com degraus altos, direitas ao rio Cabril, um ddr com bigode em modo kamikaze, desceu todos os degraus, e eram bastantes, em cima da burra, com a roda de trás a maior parte no ar, a inclinação chegou aos -30,1%, já conhecíamos as façanhas do chefe mas como esta nunca, foi de loucos.

O dia começava a escassear e as nuvens escuras não ajudavam, depois de atravessar com dificuldade uns quantos riachos chegamos a Fafião (o ultimo reforço) e a partir daqui os 8km ate à cascata do Arado, deram direito a estrear o livro de registo de reclamações, o raio dos muros não davam descanso, a cada curva, novo pesadelo, mais um muro e outro e outro, foi dos 480 até aos 800m, embora não sendo nada de transcendente, foi durinho atravessar aquelas paredes até chegar ao rio Arado já no crepusculo do dia, o tempo que perdemos (ou ganhamos), fazia-nos agora falta.

O troço do percurso desde Fafião até ao Arado, tem pontos de interesse fantásticos, infelizmente foram mal explorado por nós mercê da tal falta de tempo, esta parte merecia ser feita com mais tempo e com um dia claro.

O fim da etapa aproximava-se, os restantes 7kms, sempre a descer, foram feitos com o pedal em alta cadencia, completamente às escuras até pararmos na pensão da tia Judite, que tinha à nossa espera uma grelhada mista que foi tragada com sofreguidão, afinal era a nossa primeira refeição do dia a sério.

Pese algumas reclamações, foi um dia espetacular, por um percurso bravo e fascinante, concluído com êxito, mas aquela descida pelas escadas em Cabril, vai ficar na memória por muito tempo e para a história das maluquices.

2.domingo dia 4, a dona Judite na sua linguagem desbragada, queixava-se ao primeiro ddr que apareceu para o pequeno-almoço ”estou toda f***, o c***das costas não me deixaram dormir”, esperamos todos que ao fim de uma semana esteja melhor, da parte dos ddr não houve reclamações, a noite foi…calma.

Já passava das 09h33, quando nos despedimos da dona Judite e marido e demos inicio à segunda etapa, um pouco mais soft que a primeira, com montes só no começo, este percurso do Gerês a Esposende, é o que se aproxima mais do rio, contudo tem bastantes kms por estrada, o que nunca é do agrado de betetistas que se presam, mas compreendemos que a morfologia do terreno assim obriga, com paisagens mais domésticas, distintas das do dia anterior, deu um gozo do caraças desfrutar pelos trilhos ribeirinhos.

Valdozende, Barragem da Caniçada (habitat semanal do ddr Martinho e próxima visita de estudo), Parada de Bouro, Amares, as povoações sucediam a bom ritmo. As poucas reservas de combustível depressa esgotaram e tascas para repor os níveis de glicogenio, só em Lago do Paço, perto de Prado é que foi possível arranjar umas sandoxas para enganar a fome.

Mais confortáveis depois de enganar o estomago, prosseguimos a diversão em ritmo qb, ora pela beira do rio, ora por estrada de pixe até Barcelinhos, entretanto os efeitos da bravesa dos trilhos do dia anterior começavam a vir ao de cima, com muita gente a queixar-se dos efeitos provocados pelo selim das burras. A aventura aproximava-se do fim. Cinco horas e meia a pedalar desde que nos despedimos da dona Judite, estávamos em Esposende, agora era a vez de nos despedir do rio Cavado.

Foi a aventura possivel para o nosso contentamento em tempo de pandemia, das muitas que tinhamos planeado para este ano.

Algumas fotos tiradas pelos Narciso, Tozé e Milo

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